Realmente eu não aguentei. Sou apaixonado por futebol. Amo Copa do Mundo. Quase não durmo. Fico pirado. Assisto tudo a todo tempo. Até treino de chute a gol quando dá. Mas confesso, ultimamente a mídia vem exagerando. Pra quem não teve a oportunidade de ler a matéria sobre a cobertura da Copa, no caderno Ilustrada do último domingo, ai vai só um aperitivo. Existem mais seis itens. É demais.
Piores momentos da Copa na TV
Pieguice, "poesia", clichês patrióticos, falta de imaginação e mancadas jornalísticas adentram o gramado na cobertura do Mundial na Alemanha.
Há duas semanas o Brasil vibra, diverte-se e irrita-se com a Copa do Mundo por meio do veículo mais popular entre nós, a televisão. Com a responsabilidade de comandar a pulsação dos brasileiros-torcedores, a Globo, única emissora aberta a exibir o torneio, não consegue evitar a pieguice desenfreada e, muitas vezes, o humor involuntário, em suas reportagens e transmissões da Alemanha. Na tentativa de sair do convencional, vale desde inventar pautas "engraçadinhas", piadas e trocadilhos infames a ensaiar passos na literatura. Enquanto isso, as emissoras sem-Copa se dividem entre as que fingem que a festa não existe e as que tentam parecer "íntimas" do evento, mesmo sem imagem exclusiva para mostrar. Encerrada a primeira fase, escolhemos alguns dos piores momentos da Copa na TV.
1- Nasce um poeta
Talvez cansado do show de realidade que comanda na Globo, Pedro Bial preferiu nesta Copa subir aos céus do lirismo. Suas crônicas estilosas, que mimetizam a "poética" do veterano Armando Nogueira, enchem de imagens constrangedoras os lares brasileiros. E vão influenciando seus colegas de cobertura -Cesar Tralli já desponta como promissor discípulo. Após a vitória do Brasil sobre a Croácia, o bardo global assim cantou o gol de Kaká (para melhor apreciar, leia pausadamente, no ritmo da Globo): "Kaká parte para o chute e espia. O olhar do craque dura dois décimos de segundo e enxerga o que a gente não vê. Depois é só colocar, esperar o goleiro se esticar todinho, apreciar a rede estufar, gritar, abraçar. Kaká, o cara". A estréia brasileira, segundo Bial, anuncia "uma Copa sofrida". "Aliás, não seria Copa sofrida uma redundância?", pergunta, num lampejo metalinguístico. Ao cantar o primeiro gol contra a Austrália, diz que Ronaldo, "sem olhar enxerga Adriano". E conclui: "Hora da Austrália conhecer a perna esquerda do imperador". Inspirado pela reação dos reservas contra o Japão, Bial soltou a bomba: "Juninho rangia os dentes. Bola rolando, o time mordia, transpirava atitude, vontade tamanho GG". Mas nada ainda superou a citação shakespeariana para lançar indagações sobre os problemas da seleção: "Qual é o algo de pobre no reino do Brasil?".
2- O Advogado de Ronaldo
Galvão Bueno é um clássico. Copa do Mundo sem ele não é Copa do Mundo. É verdade que comentar suas presepadas verbais já se tornou lugar-comum. Mas chamou a atenção o esforço do narrador da Globo para "salvar" Ronaldo na partida contra a Austrália. Ronaldo não precisa de advogados. A qualidade de seu currículo salta aos olhos -da mesma forma que saltou aos olhos de todos sua péssima forma física e técnica nos dois primeiros jogos da seleção. Mas Galvão fez de tudo para vender a idéia de que o rechonchudo atacante se reconciliara com o bom futebol na partida contra a Austrália. Na realidade, Ronaldo teve um desempenho pífio. Nesse esforço, Galvão preferiu não comentar uma ridícula furada do Fenômeno num lance que poderia ter terminado em gol. Mas eis que chega o jogo da redenção de Ronaldo, na última quinta, contra o Japão. E Galvão não se contém, após os dois gols do jogador: "RRRRRRRRonaldo! Não tem mais ninguém na frente dele", menção ao fato de o atacante ter se tornado artilheiro em Copas.
"Ele se chama Ronaldo, mas poderia dizer 'Meu nome é perseverança"
Galvão Bueno, após a atuação de Ronaldo contra o Japão
Escrito por Bruno Varalli às 19h28
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