De Castelo
Com toda certeza foi o porre depois de assistir ao documentário “Vinicius” (humanamente impossível ver aquilo e não se afundar num copo duplo de uísque).
Fazia tempo que não me aventurava pelos destilados e deu no que deu: dormi no táxi e sonhei que era o Vininha.
Bom, na verdade, era eu mesmo, só que com um longo cabelo branco encimado por uma boina anos 70.
Lá estava a minha pessoa, fumando feito uma chaminé, tendo ao lado Toquinho, oito ex-mulheres e meia-dúzia de filhas de colo.
O curioso é que, no sonho, eu era um Vinicius vivendo nos dias de hoje.
Fazíamos um som no metrô.
Sentado na guia, eu cantava “passar uma tarde em Itapoã/ ao sol que arde, Itapoã” e os passantes distraídos, jogavam moedinhas de cinco centavos na boina.
Perder o emprego no Itamaraty estava atrapalhando pacas a minha vidinha no século XXI. De mais a mais, as pensões alimentares estavam pela hora da morte.
Pior: grana minguando e nenhum teatro legal querendo fazer show com um poetinha barrigudinho e amante do cachorro engarrafado.
O empresário desistira de mim naquele sonho. Foi logo depois de tentar me colocar na programação de uma “rave” e me ver preterido por um DJ australiano, duas picks-ups e um iPod.
Ah, são demais os perigos dessa vida…
E bem nesse ponto, o delírio começava a virar pesadelo. Percebo, desesperado, que ninguém quer mais se casar comigo.
Vejo uma mulher linda na praia, faço um soneto pra ela.
Quero entregar em mãos, escrito em letra cursiva, redigido em caneta tinteiro.
Ela pede que eu mande por e-mail.
Para viver um grande amor, sou capaz de tudo.
Aprendo até a mexer na Internet.
Mando, assim mesmo, de forma impessoal.
Ela responde que vai me encontrar.
Sugiro um bar intimista.
Ela prefere o restaurante natural de uma academia de ginástica.
Vou flanando feito um fauno obeso.
Ansioso, acendo um cigarro ao lado de uma bicicleta ergométrica.
Depois, pra compensar a gafe, peço um suco de laranja com cenoura pra agradá-la.
O nojo que aquilo me causa é recompensado logo depois. Ela me beija, beija, beija.
Apaixonado, peço a sua mão no dia seguinte. Durante uma corrida de 12 quilômetros na orla.
Antes de ouvir sim ou não, o coração fraqueja e eu vou parar numa clínica de desintoxicação.
Duro, e sem plano de saúde, procuro uma editora. Proponho fazer um livro de poesias novo pra poder pagar o hospital.
O editor, com jeito pernóstico, me diz:
- Vinicius, poesia não tá com nada. O negócio agora é livro de auto-ajuda.
Foi quando o motorista do táxi me sacudiu. Acordei assustado, em frente de casa, todo babado de tanto dormir.
Foi um sonho eterno, enquanto durou