Waldemar Nastácio
E foi lá que tudo aconteceu. Num lugar muito distante. Depois de onde Judas tinha perdido seus calçados, e bem pertinho da puta que pariu. Naquele lugar, não se falava em outra coisa. O ocorrido tomava conta das ruas, estampava as capas dos jornais e corria a boca do povo mais rápido que queniano dopado em maratona. O povo, por sua vez, estava eufórico, insano, incontrolável. O momento requeria uma imoralidade sem precedentes. Pro povão, pior que conquista de Copa do Mundo, é Waldemar assumindo a prefeitura meu querido. Vai nesse barulho, e sente a pressão. Ou vice-versa.
A verdade, é que nunca houvera tamanha comemoração naquele local. As empresas eram destruídas por seus próprios funcionários. Os chefes apanhavam mais que a mulher do Tom Hanks brasileiro naquela novela das oito. Os bancos foram saqueados, e os cofres, todos enxotados de acarajé baiano. As igrejas e os cultos religiosos, diziam agora ser balada “tecneira”. Cobravam consumação, mas não passavam sermão ao irmão.
Os habitantes da cidade procriavam nas ruas como vira-latas no cio. Os mendigos, agora, vendiam saquinhos de caviar a um real nos semáforos. ´´Jesus cristo é o senhor e caviar não me faltará``. Os asilos, viraram propaganda da Skol, e no setting de filmagem bebia-se de verdade. Valia-tudo: Homem com homem, mulher com mulher e qualquer outra espécie de variável encontrada.
Numa outra analise, podíamos ver o responsável pela aquela situação surreal. Waldemar Nastácio, o prefeito eleito, continuava no seu escritório. Era final de tarde, e ele estava muito feliz por ter agradado seu povo. Agora seria herói e o melhor prefeito que a cidade já viu. Teria o melhor índice de aceitação, na sua primeira semana de mandato.
O novo prefeito tinha cumprira a proposta realizada por seu slogan durante a campanha: - Uma medida pra transformar, sem tutibiar, vote Waldemar. E de fato, naquela cidade, nunca outra medida fora recebida com tanta aprovação por políticos, trabalhadores e principalmente por vagabundos e desocupados de plantão. Foi fácil. Simples como a vida não é, e nunca provavelmente deve ser...
O projeto era simples. Sem maiores milongas, resumia a vontade enrustida da maior parte do planeta. Waldemar tinha excluído a terça-feira do calendário. A medida estava estampada em frente ao seu gabinete, num folheto com letras azuis:
A terça-feira não faz sentido algum minha gente, é um dia morto, não há nada o que se fazer. Fica estabelecida que nessa cidade não existe mais terça-feira. Passemos da segunda logo para a quarta.
A explicação:
A segunda, é o dia de branco. É o primeiro e o mais chato dia da semana. É o dia em que começamos a fazer alguma coisa. É o dia que prometemos começar a dieta, voltar a academia, dar mais atenção a esposa e outras superficialidades.
A quarta, é o dia em que você esquece tudo que prometeu na segundona. É o dia da feijoada, e, portanto, devemos se esbaldar no primeiro PF que aparecer. É o meio da semana. Portanto um incentivo a mais pra chegue logo o fim de semana. À noite, é o dia do futebol ou da pelada. Seja ela na telinha, no clube, ou em qualquer motelzinho mais próximo.
A quinta, é o dia. É o dia em que o seu trabalho faz toda diferença meu caro. Com o pessoal do escritório a baixaria é liberada no happy-hour de sempre.
Já pra patroa, a quinta é uma desgraça. Pois o pessoal do escritório é uma bosta e sempre resolve fazer uma reuniãozinha de departamento na quinta à noite. Vê se pode?
A sexta-feira é a sexta-feira. Não importa o que você faça, ou o que aconteça no seu dia. Sempre tem alguém disposto a alguma coisa mais ousada numa sexta-feira. Seja ela qual for. Só depende da sua imaginação, da sua agenda e dos seus contatos. Sábado e domingo, é fim de semana. Qualquer programa é legal desde que você não tenha que agüentar a porcaria do seu chefe te enchendo o saco. O resto é resto. E no domingo você só se fode geral se tua patroa quiser. Na maior parte das vezes, isso acontece quando você tem que ir na sua sogra. Nesses casos extremos, não se esqueça: Uma medida pra transformar, sem tutibiar, um engov antes e um depois Waldemar.
Escrito por Bruno Varalli às 12h16
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