A morte de um jantar anunciado - Parte 1

 

 

            Rogério era um cara feliz. Casado com Glórinha, completara 38 anos na última primavera. Trabalhava muito, gostava do que fazia e ficava até tarde no escritório. Nascido no subúrbio carioca subiu gradativamente na vida, as custas de muita luta. Vivia, já há algum tempo, um bom momento financeiro. E sua melhor virtude, uma vez inserido nessa humanidade transcendente, era desfrutar disso tudo como ninguém.

Em suma, era um cara de bem com a vida. Bastante flexível, Rogerião, como era conhecido entre os íntimos, só não abria a mão de três coisas cruciais: a felicidade de sua família, a fidelidade de Glórinha e seu Maverick marrom-exército 79. Apaixonado, era a perfeita personificação do último romântico, desses que fazia até serenata de madruga na janela. Amava muito sua esposa. E seu único defeito (ou virtude numa outra ótica) era a dezena de amantes que detinha. Era um mestre na arte de cultivar mulheres. Mas não considerava isso como uma traição à esposa. Eram só casos passageiros. Amor mesmo, só existia um. E ele acreditava muito nele.

            Entretanto, para tal feito na clandestinidade, Rogerião, adotava algumas táticas de guerrilha e as seguias a risca. Conta exclusiva no banco, celular com linha escondida da patroa, um único motel e um exclusivo, romântico e “moqueado” restaurante. Toda semana, batia o ponto gastronômico. Era o mais assíduo freqüentador. Sempre, com uma companhia diferente.

            Bastava Rogerião embicar o Maverick na frente, pro bafafá rolar solto entre manobristas, garçons e funcionários. Todos o adoravam no recinto. Era bastante respeitado. Visto praticamente como uma celebridade, e um exemplo a ser seguido pelo pessoal, que costumava dizer que ele não ia ao restaurante. Rogerião desfilava... logicamente sempre bem acompanhado.Cada semana com uma. Uma mais deliciosa que a outra.

Naquele lugar sagrado, não era visto com mais ninguém além de suas “filiais”. Nem almoço de negócios ele fazia ali. Podia dar bandeira. Não queria se complicar. Era feliz com seu casamento e suas escapadas eram rigorosamente sigilosas. Parecia até denúncia policial.

Escrito por Bruno Varalli às 01h03
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A morte de um jantar anunciado - Parte 2

 

Domingos Oliveira, o maître, em especial, o adorava. Identificavam-se muito. A começar pelo mesmo estilo galanteador, romântico, sensível e educado que tinham com as mulheres. Eram tão amigos, e se conheciam há tanto anos, que já tinham criado uma espécie de código para comentar sobre as acompanhantes de Rogério. O esquema todo se baseava na carta de vinhos. Dependendo do pedido, podia-se concluir o “perfil” da moça desta noite; poderia ser uma moça que ainda não estava no papo, e seria preciso certa lábia pra leva-la ao destino desejado no pós-jantar. Também poderia ser alguma de vida fácil ou uma acompanhante do escritório, uma cliente, uma amiga da esposa... enfim, entendiam-se e gargalhavam toda vez com essa história. A amantes, é que não gostavam muito. Pois ficavam sem entender nada. Mas cá entre nós, a profissão de amante foi instituída sobre a condição de que não se criem maiores questionamentos.

Certo dia, após refletir por muito tempo, Rogério resolveu levar Glórinha, a matriz oficial, ao conhecido restaurante. Simplesmente achou que não teria maiores problemas...Era só pedir respeito e combinar com o pessoal do Domingos. Passaria desapercebido. E depois de tantos anos de casado, era justo dividir com a esposa, um lugar que lhe deu tantas alegrias. Mesmo que a fonte da felicidade viesse pelo “mercado paralelo”.  

Rogerião, nosso herói, tomou coragem, ligou pra casa e disse a Glórinha que lhe faria uma surpresa esta noite.

- Vou te levar pra jantar amor, um lugarzinho bem aconchegante, que eu ainda não conheço. Mas coloca uma roupa bem chique e decotada. 

Ela adorava lugarzinhos desconhecidos.Ainda mais, quando essas surpresas vinham com sotaque safado do maridão. Foram ao restaurante, e logo quando chegaram, Rogerião percebeu que teriam maiores problemas naquela noite. O esquema de combinar com o pessoal estava em risco.

Na entrada, Domingos, o maître, encontrava-se aos prantos, pois tinha sido demitido por justa causa. Pra complicar, afogou as magoas e estava completamente bêbado.

 - Doutor Rogério, perdi meu emprego, o que será de mim depois de tantos anos de serventia nesse lugar? E nossas gargalhadas com a carta de vinhos?

Tentando livra-se da situação crucial, Rogerião despistou:

- Acho que você está me confundindo meu caro?

Domingos, sem perceber a besteira que dizia, rebateu sem dó:

- Estou nada doutor, você é o Rogerião do Maveco 79, que vem toda semana com uma gostosa diferente...

Rogerião sem palavras, trêmulo e branco...

Domingos: - A propósito doutor, o senhor já foi melhor,  quem é essa baranga?

           



Escrito por Bruno Varalli às 01h02
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EU VOLTEI !!!

  Após inúmeros pedidos, o Audácias está de volta. Logicamente, não posso entrar em detalhes sobre o meu exílio. São orientações do meu advogado. Por sinal, ele é bem conhecido na família... A única coisa que posso adiantar, é que novas publicações estão por vir. Isso se não me acontecer mais nenhum imprevisto. São ofícios dos ossos.

Abraços e saudações aos que pediram a minha volta !!!

Audaz Transeunte, via conexão alfenas-jupiter-capão-redondo-butantã

  



Escrito por Bruno Varalli às 00h16
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