Domingos Oliveira, o maître, em especial, o adorava. Identificavam-se muito. A começar pelo mesmo estilo galanteador, romântico, sensível e educado que tinham com as mulheres. Eram tão amigos, e se conheciam há tanto anos, que já tinham criado uma espécie de código para comentar sobre as acompanhantes de Rogério. O esquema todo se baseava na carta de vinhos. Dependendo do pedido, podia-se concluir o “perfil” da moça desta noite; poderia ser uma moça que ainda não estava no papo, e seria preciso certa lábia pra leva-la ao destino desejado no pós-jantar. Também poderia ser alguma de vida fácil ou uma acompanhante do escritório, uma cliente, uma amiga da esposa... enfim, entendiam-se e gargalhavam toda vez com essa história. A amantes, é que não gostavam muito. Pois ficavam sem entender nada. Mas cá entre nós, a profissão de amante foi instituída sobre a condição de que não se criem maiores questionamentos.
Certo dia, após refletir por muito tempo, Rogério resolveu levar Glórinha, a matriz oficial, ao conhecido restaurante. Simplesmente achou que não teria maiores problemas...Era só pedir respeito e combinar com o pessoal do Domingos. Passaria desapercebido. E depois de tantos anos de casado, era justo dividir com a esposa, um lugar que lhe deu tantas alegrias. Mesmo que a fonte da felicidade viesse pelo “mercado paralelo”.
Rogerião, nosso herói, tomou coragem, ligou pra casa e disse a Glórinha que lhe faria uma surpresa esta noite.
- Vou te levar pra jantar amor, um lugarzinho bem aconchegante, que eu ainda não conheço. Mas coloca uma roupa bem chique e decotada.
Ela adorava lugarzinhos desconhecidos.Ainda mais, quando essas surpresas vinham com sotaque safado do maridão. Foram ao restaurante, e logo quando chegaram, Rogerião percebeu que teriam maiores problemas naquela noite. O esquema de combinar com o pessoal estava em risco.
Na entrada, Domingos, o maître, encontrava-se aos prantos, pois tinha sido demitido por justa causa. Pra complicar, afogou as magoas e estava completamente bêbado.
- Doutor Rogério, perdi meu emprego, o que será de mim depois de tantos anos de serventia nesse lugar? E nossas gargalhadas com a carta de vinhos?
Tentando livra-se da situação crucial, Rogerião despistou:
- Acho que você está me confundindo meu caro?
Domingos, sem perceber a besteira que dizia, rebateu sem dó:
- Estou nada doutor, você é o Rogerião do Maveco 79, que vem toda semana com uma gostosa diferente...
Rogerião sem palavras, trêmulo e branco...
Domingos: - A propósito doutor, o senhor já foi melhor, quem é essa baranga?