REFERENDO - PARTE 1

REFERENDO ARMADO

 

                Soube sobre referendo da comercialização de armas no país. Logo, quando tentaram me explicar, conclui. Isso não vai dar nem graça. Esse referendo é um absurdo.

Diante da pergunta: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil ? ”.  Quem será capaz de optar pelo não?  Quem irá dizer que quer armas pra todo mundo? Precisamos mesmo votar nisso?

            Ingenuidade a minha. A questão era muito mais abrangente. E alguns dias depois, começavam a aparecer campanhas de ambos os lados nos principais meios de comunicação.  Novamente, me questionei: Quem gasta todo esse dinheiro em comunicação, querendo que as pessoas fiquem armadas? Que tipo de interesse é esse? Bang-bang virou febre nacional?

            Sem dúvida, no próximo dia 23, temos uma grande oportunidade em nossas mãos. Basta entendermos os objetivos principais do referendo. E durante essa caminhada, a imprensa tem tido papel fundamental. Algumas das grandes revistas e dos principais jornais do país, deliberadamente, tomaram posições. O que na minha opinião, é legitimo e bastante interessante. Devemos saber a opinião daqueles que lemos, e que de certa maneira nos influenciam. Já que o principal objetivo de uma imprensa com qualidade é se mostrar imparcial, que seja, apresentando o os dois lados, seus prós e contras, e se possível, tome partido de um deles. E que faça isso de maneira inteligente e transparente. Afirmando escancaradamente sua posição. Deixe isso claro, por favor.

E assim, alguns veículos fizeram. A revista Trip disse SIM, assim como a Folha de S.P. no editorial de domingo, 9 de outubro. A revista Época foi imparcial, apresentou os dois lados da moeda. E não tomou partido algum. E a grande surpresa, veio por parte da maior revista brasileira, a revista Veja. Que na edição de 5 de outubro, trouxe 7 razões para votar NÃO no referendo.Pior ainda, apresentou na forma de reportagem. Na minha opinião, isso deve ser feito através de um editorial explícito. Enfim, somente uma opinião.

Em frente a este novo fato, confuso, não hesitei, continuei minhas pesquisas, fui atrás de novas informações, e agora, aqui, faço um balanço geral sobre o tema. Pretendo debater os motivos apresentados pela revista Veja, que na realidade, traduzem os principais argumentos da bancada a favor do NÃO.

Escrito por Bruno Varalli às 11h31
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REFERENDO - PARTE 2

         Os 7 argumentos -

          1- Os países que proibiram a venda de armas tiveram aumento da criminalidade e da crueldade dos bandidos.

            2- As pessoas temem as armas. A vitória do “sim” no referendo não vai tirá-las de circulação no Brasil.

3- O desarmamento da população é historicamente um dos pilares do totalitarismo. Hitler, Stalin, Mussolini, Fidel e Mão Tse-Tung estão entre os que proibiram o povo de possuir armas.

            4- A polícia brasileira é incapaz de garantir a segurança dos cidadãos.     

            5- A proibição vai alimentar o já fulgurante comércio ilegal de armas.

            6- Obviamente, os criminosos não vão obedecer à proibição do comércio.

         7- O referendo desvia a atenção daquilo que deve realmente ser feito: a limpeza e o aparelhamento da polícia, da justiça e das penitenciárias.

         

Vamos lá

 

            Primeiramente, descobri de quem e quais eram os interesses pelo NÃO que me perguntava desde do começo. Descobri os “bastidores” da panfletagem contra o desarmamento. Estão lá, a indústria da arma, suas empresas produtoras, e os políticos, que no congresso nacional os representam. São conhecidos pelo codinome singular de “a bancada da bala”.  Até pouco tempo, liderada pelo astro rei, o deputado cassado, Roberto Jefferson. Outra grande parte da bancada é composta por políticos do Rio Grande do Sul. Sede da Taurus, a maior empresa de armas no Brasil. Simples coincidência?

            Em segundo lugar, é bom esclarecemos a Veja que a proibição proposta do referendo não pretende combater as ações dos bandidos ou suas facções organizadas. Muito menos, a medida restringirá o acesso de armas a este tipo específico de grupo. Todo mundo sabe da existência do imenso mercado paralelo de armas. E para acabarmos com isso, se fazem necessárias outras medidas, como por exemplo, a fiscalização das nossas fronteiras e o combate a policiais corruptos que “passam” armas aos meliantes. São outras questões. Outra abordagem. Muito mais complexa por sinal.

            Também é bom deixar claro, que o número de armas ilegais circuladas é fator determinante para o índice de criminalidade. Não adianta compararmos o número de criminalidade, somente com a presença de armas legais na sociedade. Cria-se um número mentiroso, já que o mercado paralelo existe. Ainda por cima, com esse argumento, a revista das “elites”, faz uma comparação surreal; Brasil, com Suíça e Japão. Dois casos onde as armas são livres e controladas respectivamente. O que eles esquecem, é simplesmente sobre o grau de desenvolvimento e de instrução da população desses países em relação ao Brasil. Isso não deveria ser levado em conta?

Escrito por Bruno Varalli às 11h29
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REFERENDO - PARTE 3

           Alguns dos outros argumentos “Vejísticos”, só demonstram o entendimento errôneo que a revista teve sobre a proposta do referendo. Ele não pede o desarmamento da população, alegando que a polícia esta preparada para dar conta do recado. Isso é um absurdo. É subestimar o leitor. Quem acreditaria nisso?  E por fim, o sétimo motivo, pelo NÃO, fecha o discurso. A Veja diz: “O referendo desvia a atenção daquilo que deve realmente ser feito: a limpeza e o aparelhamento da polícia, da justiça e das penitenciárias”.  Que isso tudo deve ser feito, todos sabemos. E torcemos. Mas simplesmente, não é o que o referendo promete. Não é este o objetivo. Explico o porque;

No caso do referendo, devemos levar em consideração o cenário em que surgi à pergunta. O Brasil. País em que segundo pesquisas da Unesco, ostenta o primeiro lugar no ranking de homicídios por arma de fogo em números absolutos (mais de 300 mil pessoas em dez anos).  Outro dado a ser relevado, é que mais de 90 % das armas aprendidas em crimes por aqui, são de calibre permitido e entraram na sociedade legalmente. Essas informações, aparecem no estudo ´´Mortes Matadas por Armas de Fogo no Brasil``, que conclui, que, acontecem cerca de 39 mil mortes por ano, em média, 106 por dia, 4 a cada hora. Interessante não?

Nesta mesma nação tupiniquim, uma outra pesquisa, realizada pela Secretária de Segurança Pública de São Paulo, aponta que latrocínios (roubo seguido por homicídio), chacinas e confrontos entre policiais e bandidos somam apenas 11% dos homicídios no Estado de SP. E mais meus caros, o ministério da Justiça, afirma que 73% das armas envolvidas em crimes já estiveram na legalidade.

O que isso quer dizer? Muita coisa. Traduz o principal e o fundamental para a proposta de existência do referendo. O objetivo, é de: Diminuir específicos tipos de homicídios. Aqueles que por motivos banais, como conflitos entre parentes e conhecidos, tretas de bar, alcoolismo, desavenças no trânsito e cobiça a mulher alheia. Uma questão social. Concebível em uma outra realidade.

Portanto, a questão, se torna simples. O cerne da discussão propõe desarmar uma população despreparada, que reflete o alto grau de desigualdade social do país. Essa é a proposta, essa é a medida, e essa é a nossa chance de diminuir certos homicídios que acontecem. E muito pelo que se pode perceber.

Acredito que a Veja foi infeliz. Acho que enxergou o referendo como proposta do atual governo, e como sempre, quis bater nele. Tentou criticar, sem saber realmente os reais valores da medida. Que fique claro aqui, que não estou defendendo governo algum, só estou dizendo que a revista errou na maneira de abordar o tema. Era uma boa chance para trazer informações e dados importantes sobre o problema aos seus leitores, pois tudo isso de uma maneira ou de outra, pode mudar a vida de qualquer brasileiro. Acho que não era hora de se prendermos a governo, oposição, A, B ou C. Estamos falando em salvar vidas, um gesto, de todo louvável. Um gesto em prol dos que sofrem e “vivem” a realidade mais cruel deste país.

Por fim, peço um pouco de consciência aos que votaram no dia 23. O referendo em si tem suas limitações, todos sabemos, mas os prós com certeza superam os contras. Temos uma chance de transformar vidas. Uma chance de poder, na mão de gente honesta. Uma chance de trazer a paz um pouco mais perto de nossas vidas. Será que não merecemos?

Hoje fiquei mais feliz, assisti uma propaganda de TV ao SIM com o mestre Chico Buarque. Fez-me sentir um pouco mais aliviado, e perceber que este deve ser mesmo o melhor caminho. Espero não ter mais medo de errar.

 

Escrito por Bruno Varalli, quase um publicitário, metido a escrever, e que nunca pegou numa arma. Na verdade, matou um passarinho com uma atiradeira na infância, e até hoje, arrepende-se muito do ato. Juro que foi sem querer.

 

 



Escrito por Bruno Varalli às 01h17
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