SÁBIAS PALAVRAS DE BEZERRA
Entrei meio puto no carro. Tava atrasado, e meio de saco cheio do mundo. Nada melhor pra enfrentar uma horinha eterna com trânsito paulistano até a faculdade. Algo deveria ser feito. Realmente, eu não ia viver um bom momento.
Estava cansado dos assuntos atuais. Não agüentava mais os mesmos temas, raciocínios ou conclusões sobre o nosso Brasil. Queria mudar de assunto durante meu trajeto. Nada de Severino ´´articulado`` na ONU, Mensalão parado, Jefferson cassado, Família Maluf ou publicidade do ´´Vampiro`` no uniforme das criancinhas. Muito menos, queria saber sobre a geometria do Parreira na seleção. Já me encheu essa história de quarteto e quinteto. Só de raiva, se eu fosse o técnico, pediria emprestado o sexteto pro Jô Soares. Isso ai. Tocaria o terror. Sexteto neles. Se possível, com Derico, Tomate e Bira (Mandela) na frente.
Bom, não vamos se estender nos assuntos atuais. O que interessa é que eu estava numa crise existencial dentro carro, e em plena hora do rush. E diante dessa verdadeira sinuca de bico, fui mexendo logo no case de Cd´s. E foi assim que achei um CD do Bezerra da Silva, que eu mesmo, dei de presente pro meu irmão em algum aniversário dele. Deve ser sido aquele presente de grego com sabor de ´´gosto pessoal``. Nem sei se ele gosta mesmo do disco. Enfim, o que importa mesmo, é que esperando dar umas risadas com entretenimento puro e hilário, coloquei o CD pra tocar.
Mas na verdade, o que eu não parei pra pensar, era sobre o que eu já conhecia do trabalho do Bezerra. Ingenuidade a minha. Esqueci completamente sobre sua postura ideológica e letras singulares. E assim, comecei a me desligar do trânsito, ao som do Malandro é Malandro, e Mané é Mané.
O percurso, que era chato e lento, começou a mudar de figura. Fiquei cantando e refletindo sobre o som. E logo me lembrei, que alguma vez, em algum lugar, eu vi um documentário sobre o Bezerra. Se não me fale a memória, o nome era: Onde a coruja dorme. E lembro também, que aquilo me fez refletir um bocado.
A começar, pela tom fortemente crítico que tinha o filme. Logo se via umas entrevistas com o Bezerra e seus parceiros de letra. (Um deles, lembro o nome: 1000ltinho). E era gente humilde, simples mesmo, mais com um tremendo de um poder de questionamento sobre a vida. Não me lembro ao certo às palavras que ele usou, mas em determinado momento, disparava algo entorno: ´´ Bezerra da Silva é fenômeno, não tem divulgação em rádio, é esquecido e evitado pela mídia, mas mesmo assim vende CD na loja``. Ou então, indagado sobre a questão do tráfico, na favela em que vivia, respondeu num dos raciocínios mais simplistas, e reveladores que já vi: ´´ Me diz uma coisa minha senhora, você já viu aeroporto na favela ? Já viu porto ou heliporto por aqui? Então. Se não tem, a droga não chega aqui sozinha. Portanto, concorde comigo que alguma errada tem nisso``.
Concluindo, depois disso tudo, lá estava eu perante as questões absurdas do nosso país novamente. Perguntando-me, como pode Bezerra, com todo o tipo de dificuldade, de origem nordestina em direção a cidade grande, ter esse tipo de percepção sobre questões sociais, culturais e políticas?
E assim, impressionado, continuei a ouvir a aula musical de Bezerra, com a esperança que ele dessa dos céus, e de umas aulinhas do seu português ´´limitado`` para a tão contundente elite brasileira, que hoje, nos enche de vergonha.
Abaixo seguem trechos de algumas de suas percepções. Pura poesia. E mais realista do que nunca. Aproveite meu povo:
Escrito por Bruno Varalli às 01h54
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