As estantes não serão mais as mesmas

 


É chegada a hora da mudança. Sendo franco, essa me preocupa um pouco mais que as outras. Nada de mais. Não, não é nenhum problema de saúde. Mas acho que meu irmão vai mudar do nosso quarto.

         Não encaro isso como uma catástrofe. Afinal, essa mudança tem um lado geográfico-espacial muito bom. Apesar, de que o lado ruim pode falar mais alto. É como se acabasse um casamento. Igualzinho a esses que tem por ai, onde se dorme separado, se ama muito, se briga bastante, e por razões existenciais da vida, se convive junto. Como num Big Brother eterno. Que agora, com a cara mais deslavada do mundo, vou ao confessionário, e pro Bial, e pro Brasil, digo sucintamente:

- Bial, vou eliminar meu irmão. Nada pessoal. É questão de convivência.

Convivência, que às vezes, com meu irmão, foi difícil de encarar. Primeiro porque quem conhece a gente, não demora a notar, que somos ´´um pouco`` diferentes na maneira de viver a vida. E segundo, porque às vezes, conviver com um mala a menos de um metro da sua cama é bem complicado.

Um grande e maior exemplo da nossa discrepância, são nossas estantes do quarto. Particularmente, acredito que pela estante de uma pessoa você pode conhece-la muito bem. E é por essa teoria de personalidade expressa, inventada agora, que quando você adentra o nosso quarto, já percebe qual é a minha e qual é a dele.

         A começar que a dele parece prateleira pra foto de catálogo. Livros em ordem alfabética, relacionados por assuntos, fotos de momentos felizes com a namorada, objetos ´´apresentáveis`` de decoração, certificados de diplomas da França , outros cursos e algumas lembrançinhas legais de grandes corporações. Sim, ele tem essa mania de brinde. E ainda por cima segue a seita satânica ao deus mercado.

Já a minha estante, é mais complicada. A começar pela disposição das coisas, que deixo a caráter delas mesmo. Prefiro que fiquem mais à vontade no seu habitat. Não há muitas regras. Onde der pra colocar, fica lindo. Quem chega primeiro, leva. Os livros, eu ainda procuro conservar de maneira que consiga ler, mas o resto vive numa situação crítica mesmo.

Na composição geral, estão: Objetos inúteis de diversos modelos, bichos de pelúcias provenientes de relacionamentos naufragados, um barquinho de madeira fui pra Porto Seguro e lembrei de você, uma caixinha de primeiro socorros com fotos da vida, um mini-craque do Edmundo, um porquinho daquela promoção da Parmalat, um  Chaves cabeçudo de pelúcia  (ganhei de mamãe diretamente do Embú das Artes), um Woodstock de plástico personagem do Snoppy, uns cd´s que a casa não quis e num ato ´´generoso`` me deu, uns textos enjoados da faculdade e os livros que ganhei ou comprei. Essa parte dos livros, acho que deve ser ressaltada. Pois é a que pode gerar alguma espécie de comparação entre as nossas vidas. E nossas estantes...

Analisando os meus, que na minha estante, trazem assuntos plausíveis como política, cultura, arte, humor, esporte, entretenimento, clássicos, atlas geográficos, guia de praia, dicionários português/inglês/inglês/português  e outras porcarias. Acho completamente normal e delicioso, ter na estante, o Arte Moderna, do C. Argan. Ou mesmo, O Duelo: Churchill X Hitler, 80 dias cruciais para a história da humanidade, escrito pelo John Lukacs. Ou até mesmo, o escrachado e literalmente delicioso, Mesa Voadora, escrito pelo mestre L. Fernando Veríssimo. Enfim, são só exemplos.

          Mas agora, ao olhar pra estante de livros do meu irmão, qualquer pessoa pode ficar em choque. Quando trago amigos aqui em casa, já aviso. Cuidado. Você tem 50% de chances de sair com depressão do meu quarto. Desconsiderando alguns exemplares que valorizo sobre comidas, bebidas e vinhos. Que acho útil como cultura. Mas melhor ainda pra impressionar a mulherada. Ele mesmo, deve ter pegado um monte de mulher com essa técnica fajuta.

         Agora, voltando ao raciocínio dos livros, são títulos inconcebíveis meus queridos. E antes de uma análise mais profunda dos livros dele, se isso aqui soar como denúncia pessoal, não me levem a mal. Ele ainda é meu irmão. E ainda por cima, mora no meu quarto. Só que realmente existem coisas inacreditáveis, como: Aprendendo a Readministrar sua Vida Pessoal, Cálculo 1, Matemática Financeira, A Organização Individualizada, Vender,  e o interessantíssimo e singular, Padronizando o Sistema de Qualidade na Hotelaria Mundial . Nossa... cheguei a tremer. Sendo sincero, nunca li os livros para julgá-los. Mas simplesmente, tenho muito medo deles. A não ser quando tenho muita insônia. Pego qualquer um. Na base do minha mãe mandou.É tiro e queda. Forçando, e lendo o mais rápido que posso pra ver se me interesso, não vai mais de uma página e meia. Boa noite.

Escrito por Bruno Varalli às 16h34
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