O sonho de Hollywood (1)

            

            Gostaria de fazer um comunicado neste blog:

Prezados amigos, parentes ou insetos alucinógenos que freqüentam isso aqui, o sonho acabou...

            Nada de estrelato, fama, dinheiro, mulheres caindo como água mineral ou primos interesseiros de volta. Hoje, tenho certeza, que o sonho Hollywood ficou mais distante.

            Na manhã desta quarta-feira, fui assistir minha primeira atuação no cinema nacional. Na verdade, trabalhei em alguns curtas metragens como produtor. Foram seis curtas em quarenta dias precisamente. Fiquei bastante feliz e realizado com o trabalho pesado na produção. Mas o que mais me surpreendeu, é que no meio dessas produções, surgiu uma proposta para atuar.

            Pronto. Pensei comigo. Já era hora mesmo. Descobriram-me pro mundo das artes cênicas. É assim que todo mundo começa mesmo. Agora, ninguém segura.

            O convite foi feito no próprio dia da filmagem mesmo. Assim, ´´meio`` em cima da hora. No calor do momento, não discuti as bases do cachê. Tudo vale pelo amor a arte. Portanto, após uns 39 segundos de conversa com o diretor, ele explicou minuciosamente o meu papel:  Figurante.

            Isso, na visão dele é claro. Logo pensei: isso é coisa de quem quer abaixar o cachê depois. Tudo bem. Eu aceito. Mas naquele momento, não me considerava um figurante. E sim um ator em começo de carreira. Tenho que ter visão de mercado.

            Após me trajar a caráter dos anos 50, capa-preta-meio-gangster, lá estava eu. Logo na primeira cena do curta, e única minha o diretor chegou pra conversar comigo.

            Veio a instrução. Seca e mortífera:

             (continua abaixo...) 

 



Escrito por Bruno Varalli às 16h49
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O sonho de Hollywood (2)

            - Bruno, a hora em que começar a chover. Vou gritar: ação!!! Você corre, e passa na frente da câmera. Em direção a menininha (atriz principal). E só vai aparecer seu corpo, da altura da cintura pra baixo. Ok?

            Na hora, em desespero, sem qualquer coragem e engolindo minha faringe a seco, respondi em tom tímido:

- Tudo bem. Deixa comigo. Dou conta do recado.

Dentro de mim, a reflexão árdua e realista, era inevitável. Como assim ?

Quer dizer que primeiro ele me chama de figurante. Assim, sem mais nem menos. Depois diz que a atriz principal é uma menina de cinco anos (que vai fazer seis segundo ela). E depois, sem se dar por contente, me coloca numa cena com chuva artificial, onde o foco, por no máximo seis segundos, será o meu joelho???

Confesso que não entendi muito bem essa do cara. O que será que fiz pra ele? Mas tento entender esses diretores. Sempre soube que esses caras são meio ´´estrelinhas`` mesmo. Acho que ele vê o meu real potencial. Mas tem medo que eu ofusque a participação dele no filme. Também teria se fosse ele. É melhor previr do que remediar.

Voltando a cena. Foi meio contrariado, que a fiz até o final. Dignamente. Como grande ator que sou. Mesmo com o desgraçado repetindo ela umas seis vezes e eu lá. Com parte do corpo pra câmera, e ele inteiro pra chuva.

Hoje, já com o sentimento cicatrizado e o resfriado curado, cheguei pra ver a ordem de apresentação dos filmes. Pra minha alegria, aquele em que atuei, seria o primeiro. Minha cena seria logo a primeira de todos os curtas. É pra começar bonito. Enfim, o talento foi reconhecido.

E a projeção dos curtas para o Festival Internacional de SP foi hoje. Lá no CINESESC. E deve várias peculiaridades. A começar pelo horário: 10:30h da manhã. Deve ser horário de glamour. Pro cinema é claro. Pro resto do mundo, é hora de desocupado e vagabundo.

 Demorou pra começar. Teve muito atrasado. Só não mais que a quantidade Champagne por pessoa servida. Acho que ninguém tava muito confiante pra ver os filmes produzidos. O segredo foi a Champagne lá vonte no começo.

E assim, meio embriagada, as 11:30h da manhã, a sessão começou. A sala era grande. Mais tava meio vazia. E enlouquecida.

E quando começou o filme, pra minha surpresa, a primeira cena, em que eu aparecia, foi cortada.

São nessas horas. Que não sei nem o que dizer.



Escrito por Bruno Varalli às 16h47
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O valor real, de uma coisa sem valor.

 

 

 

 

            Desde que me conheço por gente. E não faz lá muito tempo. Tenho uma teoria sobre calçados. Hoje, ela já é ultrapassada e totalmente furada. Eu mesmo não a prático mais como antigamente. Mesmo assim, às vezes me pego fraquejando e tento resgata-la de qualquer maneira.

            Pode parecer utopia de neurótico. Ou, solução de pobretão. Mais sempre achei que não se deve pagar mais de 100 reais por um simples par de tênis. Sou saudosista quanto a isso. Gosto de relembrar o valor pago nos meus calçados. Gosto de sentir a sensação: acho que valeu a pena. Comprei bem desta vez.

            Sem dúvida, gosto de pares de tênis. E o que mais gosto, são as sensações que sinto, quando vou comprar um. Gosto de sentir o cheirinho de novo quando o artefato sai da caixa. Gosto do apertãozinho básico no dedão direito do pé. Gosto que o vendedor passe o cadarço pra mim experimentar. Gostode ir até o espelho, e ficar feito bobo, tentando ver se ficou bom.

Mas quando saio pra comprar tênis, a presença de mamãe é obrigatória. Ela já me salvou muitas vezes. Sempre com uma mesma frase. Ela não cansa de repetir. E eu não canso de esquecer. E sempre, quando ela fala, cai perfeito:

- Levanta pra ver se ficou bom. Só se confere o tamanho correto, ficando de pé.

Realmente é uma constatação genial. Deve fazer algum sentido. Apesar de que, eu ainda não entendendo qual é. Será que o meu pé tem dois tamanhos? Um quando fico de pé, e outro quando sento? Se for verdade, os vendedores deveriam ajudar. Cairia bem uma perguntinha como:

- Senhor, vai passar a maior parte do tempo sentado ou de pé com ele?

- O seu 42, é de pé ou sentado?

Bom, apesar do duvidoso atendimento do vendedor. Não gosto mesmo é dos preços

dos calçados atuais. Qualquer coisinha, já se vão 300 paus. Sem falar nos modelos desenvolvidos na Nasa. Contém air-bags, 37 molas, amortecimento pra pouso de pára-quedas, ventilação nas laterais e ajuste ao modelo de pisada do pé.

            Certa vez, indagado por um vendedor metido a maratonista, rebati com gosto:

- Senhor, você sabe qual é o seu tipo de pisada no solo?

- Não ao certo. Mas deve ser o modelo pisada Caiçara. Com os dedões bem abertos, acostumado a areia quente e pisada em caco de vidro.

Ele não deve ter entendido nada. Assim como eu na sua pergunta. Ficou no seis

por meia dúzia.  Mas eu até entendo o seu árduo trabalho. Ele tem que explicar e diferenciar coisas insignificantes para justificar o valor absurdo de um par de tênis. Pra mim, tirando algumas exceções funcionais entendíveis, deveria ser tudo um preço só. Tabelado. Obviamente, 100 reais. Estaria de bom tamanho.

            O mais interessante, dessa minha neurose pelo preço dos calçados, é que essa não é uma teoria somente minha. Encontrei um outro doente. Chorei de alegria. Não na hora. Mas chorei. Tinha exatamente a mesma alegação. E tinha mais embasamento na teoria. Deve ter feito mestrado lá fora. Só sei, que até hoje, ele resiste bravamente com nosso ideal de vida. Não gasta mais do que cem reais num tênis. Ele leva a sério mesmo. Pode ser considerado o movimento de esquerda dentro da teoria. Descobri isso, num almoço de negócios. O cara era diretor de cinema. E após esse dia. Constatei duas coisas importantes:

            A primeira, é que o mercado de calçados está inflacionado e que não devo pagar a mais, por uma coisa que não vale.

            Já a segunda, é que realmente, devo estar ficando maluco de tudo.

Escrito por Bruno Varalli às 02h12
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