O valor real, de uma coisa sem valor.
Desde que me conheço por gente. E não faz lá muito tempo. Tenho uma teoria sobre calçados. Hoje, ela já é ultrapassada e totalmente furada. Eu mesmo não a prático mais como antigamente. Mesmo assim, às vezes me pego fraquejando e tento resgata-la de qualquer maneira.
Pode parecer utopia de neurótico. Ou, solução de pobretão. Mais sempre achei que não se deve pagar mais de 100 reais por um simples par de tênis. Sou saudosista quanto a isso. Gosto de relembrar o valor pago nos meus calçados. Gosto de sentir a sensação: acho que valeu a pena. Comprei bem desta vez.
Sem dúvida, gosto de pares de tênis. E o que mais gosto, são as sensações que sinto, quando vou comprar um. Gosto de sentir o cheirinho de novo quando o artefato sai da caixa. Gosto do apertãozinho básico no dedão direito do pé. Gosto que o vendedor passe o cadarço pra mim experimentar. Gostode ir até o espelho, e ficar feito bobo, tentando ver se ficou bom.
Mas quando saio pra comprar tênis, a presença de mamãe é obrigatória. Ela já me salvou muitas vezes. Sempre com uma mesma frase. Ela não cansa de repetir. E eu não canso de esquecer. E sempre, quando ela fala, cai perfeito:
- Levanta pra ver se ficou bom. Só se confere o tamanho correto, ficando de pé.
Realmente é uma constatação genial. Deve fazer algum sentido. Apesar de que, eu ainda não entendendo qual é. Será que o meu pé tem dois tamanhos? Um quando fico de pé, e outro quando sento? Se for verdade, os vendedores deveriam ajudar. Cairia bem uma perguntinha como:
- Senhor, vai passar a maior parte do tempo sentado ou de pé com ele?
- O seu 42, é de pé ou sentado?
Bom, apesar do duvidoso atendimento do vendedor. Não gosto mesmo é dos preços
dos calçados atuais. Qualquer coisinha, já se vão 300 paus. Sem falar nos modelos desenvolvidos na Nasa. Contém air-bags, 37 molas, amortecimento pra pouso de pára-quedas, ventilação nas laterais e ajuste ao modelo de pisada do pé.
Certa vez, indagado por um vendedor metido a maratonista, rebati com gosto:
- Senhor, você sabe qual é o seu tipo de pisada no solo?
- Não ao certo. Mas deve ser o modelo pisada Caiçara. Com os dedões bem abertos, acostumado a areia quente e pisada em caco de vidro.
Ele não deve ter entendido nada. Assim como eu na sua pergunta. Ficou no seis
por meia dúzia. Mas eu até entendo o seu árduo trabalho. Ele tem que explicar e diferenciar coisas insignificantes para justificar o valor absurdo de um par de tênis. Pra mim, tirando algumas exceções funcionais entendíveis, deveria ser tudo um preço só. Tabelado. Obviamente, 100 reais. Estaria de bom tamanho.
O mais interessante, dessa minha neurose pelo preço dos calçados, é que essa não é uma teoria somente minha. Encontrei um outro doente. Chorei de alegria. Não na hora. Mas chorei. Tinha exatamente a mesma alegação. E tinha mais embasamento na teoria. Deve ter feito mestrado lá fora. Só sei, que até hoje, ele resiste bravamente com nosso ideal de vida. Não gasta mais do que cem reais num tênis. Ele leva a sério mesmo. Pode ser considerado o movimento de esquerda dentro da teoria. Descobri isso, num almoço de negócios. O cara era diretor de cinema. E após esse dia. Constatei duas coisas importantes:
A primeira, é que o mercado de calçados está inflacionado e que não devo pagar a mais, por uma coisa que não vale. Já a segunda, é que realmente, devo estar ficando maluco de tudo.
Escrito por Bruno Varalli às 02h12
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